08/09/2011

O culto à cabeça

Arqueologia
Guerreiro Picto
O culto à cabeça
......Muitos povos da Antiguidade costumavam decapitar seus inimigos, levando as cabeças consigo como troféus.
......Dentre estes povos, pode-se citar os pictos, que ocuparam a região da atual Escócia. Esse nome foi atribuído pelos romanos no século III, em latim picti que significa “os pintados”, por terem o hábito de pintarem e tatuarem seus corpos.

 ......Os pictos são o povo mais interessante e menos bem definido e conhecido dentre todos os povos da Britânia celta. No primeiro século a.C., quando os romanos invadiram a Grã-Bretanha, César fez a observação de que todos os britânicos desenhavam seus corpos com woad, um pigmento de cor azul, atribuindo aos pictos aparência ainda mais aterrorizante quando surgiam nos campos de batalhas. 
......Entretanto, os pictos se intitulavam pretani ou pritani. Aliás, o nome da Grã-Bretanha em galês antigo era Prydein, que depois originou Britânia e posteriormente, Grã-Bretanha. O nome pretani ou pritani, embora fosse um nome de origem céltica, não necessariamente tornava os pictos uma tribo celta.
......A vida social e religiosa tinha suas próprias complexidades e não está claro como os pictos enterravam seus mortos. O mais provável é que os pictos se miscigenaram com os celtas, pois existiam duas línguas pictas bem distintas. Uma parece ser não-céltica, pois não tem origem nas línguas indo-européias, apesar de terem sido encontradas inscrições dessa língua em Ogam, alfabeto tipicamente celta.
......Por este motivo, muitos arqueólogos acreditam que quando os celtas chegaram na Escócia por volta de 500 a.C., vindos do continente europeu, teriam imposto o seu modo de vida rudimentar aos pictos, pois estes não mantinham nenhuma estrutura tribal anterior. Essa tese fica demonstrada através dos nomes tipicamente celtas dos reis pictos, assim como os nomes de lugares e rios na Escócia cuja origem igualmente é celta.
......A sociedade picta era matrilinear, assim como a celta, ou seja, quem definia o parentesco era a mãe. A nação picta teria atingido meio milhão de pessoas e ocupado uma área maior que a do País de Gales, sendo, portanto, dividida em diversas tribos. O geógrafo Ptolomeu listou cerca de trinta tribos pictas no século II.
......Para os pictos, assim como para os celtas, a cabeça abrigava a alma, refletindo a divindade, sendo, portanto, fonte suprema do poder espiritual. Os inimigos derrotados em batalha tinham suas cabeças cortadas. Os guerreiros vencedores entoavam um hino de louvor ao regressarem ao lar, triunfantes com seus troféus – as cabeças dos inimigos.
......Além de troféu, a cabeça do inimigo conferia ao vencedor o seu poder sagrado, atribuindo-lhe suas qualidades.
 


CrânioOs crânios eram usados para adornar os portais
de locais sagrados, especialmente cemitérios. 


......Para os celtas, não só as cabeças verdadeiras e os crânios eram importantes, mas costumavam entalhar cabeças em pedras, metal e madeira. Muitas cabeças de pedras foram encontradas na Grã-Bretanha. Algumas destas peças possuíam duas faces e outras, três.



Umbral de um templo gaulês. Os crânios tinham dupla função: concentrar o poder espiritual do deus da guerra e proteger os vivos do perigo sobrenatural. Roquepertuse, Bouchesdu-Rhône, França, séc. III/II a.C.




Arreios de Bronze







Estas três peças são arreios de bronze para cavalos, datados de mais ou menos 500 a.C. As minúsculas cabeças são amuletos protetores

Urna















Urna com três faces, Carintia, Áustria, séc. III a.C. (Landesmuseusm, Klegenfurt.





 
Figuras de Pedra













A percepção dos mistérios celtas pode ser vista representada nas figuras de pedras que olham para os dois lados, nascer e por do Sol, provavelmente indicando a dualidade de todas as coisas, especialmente o mundo visível dos homens e o mundo invisível dos sonhos. Ilha de Boa, Logh Erne, Condado de Fermanagh, Irlanda, séc. VII.












Cabeça de Pedra






Cabeça de pedra com três faces. Corleck, Condado de Cavan, Irlanda, séc. III/II a.C. Museu Nacional da Irlanda, Stuttgart.









Outros povos antigos do continente americano foram chamados de “encolhedores de cabeças”. Alguns desses povos existem ainda hoje.


......Existiram tribos amazônicas e de ilhas do Pacífico que tinham como costume desossar e encolher as cabeças. Para os índios shuara, que ocupam a floresta amazônica entre o Equador e o Peru, as cabeças poderiam servir de troféu ou talismãs no caso de inimigos abatidos em combate, mas também encolhiam as cabeças dos entes queridos, como forma de preservarem a lembrança e para que seus ancestrais pudessem proteger a tribo.
......No caso dos inimigos, o encolhimento das cabeças era feito ritualisticamente, como forma de anular o poder daquele espírito ou aprisioná-lo, para que não se tornasse uma assombração e pudesse se vingar do seu assassino.
......Eis a técnica utilizada: a cabeça é retirada do corpo na altura do tronco. Faz-se um corte na parte posterior do cabeça, removendo-se o crânio. Depois, separa-se a pele da carne com muito cuidado para não danificar o rosto, preservando-se os cabelos. A pele é fervida com tanino, substância usada para curtir peles. Não pode ferver por mais de meia hora, caso contrário, os cabelos caem. A pele curtida é posta para secar ao Sol com pedras esféricas que são introduzidas em seu interior para que a cabeça não deforme. Vira-se a pele do avesso, costurando-se os olhos para que o espírito não possa enxergar. A boca é presa com um espinho de madeira para que o espírito não possa falar e os pinos também são fixados nas orelhas, para que o espírito não escute as conversas. Todo o processo dura cerca seis dias para ser concluído e a cabeça fica reduzida a ¼ do seu tamanho natural. No último dia, celebram o final dos trabalhos com uma festa chamada tzantza, nome este pelo qual as cabeças encolhidas também são chamadas.
......Os índios jivaros, uma tribo da nação shuara, também faziam as tzantzas, tsantsas ou chanchas. Aparentemente, os shuaras deixaram de praticar essa técnica há quase um século.



Cabeça





Cabeça encolhida proveniente do Amazonas exposta no museu Pitt Rivers, na Universidade de Oxford, UK.











Outra tzantza, tsantsa ou chanchã.









......É provável que tribos de outros continentes, como a Oceania e a África, também praticassem o ritual de encolhimento de cabeças. Entretanto, não pude confirmar estas informações por falta de fontes fidedignas.
......No século XIX, essas peças produzidas pelos índios da nação shuara começaram a ser comercializadas pelos brancos, que trocavam com os índios. Rapidamente as tzantzas ganharam mercado, sendo disputadas por colecionadores, estudiosos dos costumes indígenas e curiosos. Mas a pressão da igreja católica acabou com este tipo de comércio que só durou algumas décadas. 



......A deusa que há em mim saúda a deusa ou o deus que há em você!

Lady Mirian Black


Lady Mirian Black......Fontes:
......- “Mistérios Celtas”, John Sharkey, edições Del Prado, São Paulo, 1.997;
......- “Terras e Povos Misteriosos”, coleção Mistérios do Desconhecido, editora Abril Livros, Rio de Janeiro. 

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