20/12/2010

A druidesa e Diocleciano

A druidesa e Diocleciano

À classe das sibilas nórdicas, de religião céltica, deve-se acrescentar uma certa druidesa de Tongres, florescente cidade da Gália belga à época da dominação romana, nas proximidades da atual Liège. Merece ser recordada, tanto por ser ignorado seu nome quanto pela particularidade da profecia que lhe foi atribuída.

Era o inverno de 270 d.C. e notáveis contingentes de tropas romanas estavam aquartelados em Tongres à espera da primavera. Alguns legionários se haviam alojado numa taverna no limiar do bosque, onde os druidas, sacerdotes da reli­gião céltica local, costumavam celebrar seus ritos. Havia entre estes soldados um dálmata de bela aparência e físico robusto, com cerca de 25 anos de idade. Estava taciturno, isolado dos outros, comendo uma refeição frugal. Frugal demais — ou pelo menos assim pareceu à mulher que o observava curiosa das sombras, como atraída por um misterioso chamado — para um jovem de tanto vigor físico.

Assim, quando o legionário terminou a refeição e pagou a conta com uma moeda de cobre, a mulher dirigiu-lhe a palavra com uma ponta de ironia, como para chamar-lhe a atenção.

Tu és sovina — disse. O legionário se virou, fitando-a nos olhos. A tradi­ção diz que se tratava de uma bela mulher, de físico imponente, e que se vestia da maneira excêntrica dos magos celtas. O jovem dálmata viu-se então diante de uma criatura de ar selvagem e cabelos escorridos sobre os ombros, como convinha a uma freqüentadora da floresta sagrada, que provavelmente envergava "um curto manto negro zebrado de bandeirolas vermelhas, caindo sobre calças largas de flanela branca, e botas de couro, também brancas", cobrindo os ombros com "uma mantilha de lã grossa com xadrezes vermelhos".

Os circunstantes pareciam demonstrar um grande respeito por essa mulher de ar tão pitoresco e uma particular curiosidade pelo que tinha dito. Por isso fez-se um grande silêncio na taverna, rompido apenas pelo crepitar do fogo e pelo uivar do vento lá fora.

O legionário então, sentindo-se o centro da atenção geral, respondeu à mulher com igual ironia:

Serei mais pródigo — disse — quando me tornar imperador.

- Serás imperador - rebateu ela de imediato, continuando a fitá-lo —, quando matares o javali.

Ao dizer tais palavras, a mulher saiu e desapareceu na noite.

— Quem era? — perguntou o soldado aos presentes.

- Uma sacerdotisa que vive na floresta — responderam. — Passa todo o seu tempo debaixo de um carvalho sagrado, à espera das revelações divinas. Os deuses a usam para dispensar seus conselhos aos homens. Nunca se equivocou.

— Quando acontecer o que ela predisse — concluiu um outro —, lembre-se de Tongres.

A partir daquele momento, começou para o jovem dálmata, que se chamava Diocles, uma incessante caça ao javali. Onde quer que se encontrasse, dedicava-se a isso com um zelo maníaco, matando uma dezena deles. Nada, porém, acontecia que pudesse fazê-lo pensar, por mais remotamente que fosse, no cumprimento da profecia.

Sendo um bom servidor do Estado, dotado de um forte espírito militar além de coragem, ia sendo promovido, subindo na carreira. Mas não bastava acumular funções — por mais prestigiosas, como aquela de administrador do palácio imperial — para poder considerar crível a eventualidade prevista pela druidesa.

Os imperadores se alternavam em uma sucessão de delitos, e ele estava sem­pre junto a eles, mas sem levar qualquer vantagem. Caíram Aureliano, Tácito, seu irmão Floriano, Probo, Caro, seus filhos Carino e Numeriano, todos assassina­dos. Mas somente na morte deste ultimo, em setembro de 284, em Calcedônia, Diocles teve a iluminação decisiva.

O jovem imperador tinha sido de fato apunhalado por seu padrasto Aper, que significa justamente javali. Era ele então a besta que teria de sacrificar para subir ao trono. Diocles (que havia latinizado o seu nome para Diocleciano) o fez pessoalmente, e o exército o aclamou imperador,

Seu reinado foi funesto para os cristãos, que por dez anos sofreram persegui­ções cruéis.

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